18/03/2012

Parrhesia

(Sobre um texto de Foucault). Suponhamos que eu sabia uma verdade importante e desconhecida sobre um de vocês. Ou vocês sobre mim, não importa a ordem. Eu poderia destruir-vos e dominar-vos pois teria em mim o poder dessa verdade, bastava-me ser absolutamente franco, dizer tudo (aquilo a que os gregos chamavam parrhesia). Em contrapartida, poderia também assistir-vos e guiar-vos com a vossa mesma verdade de que apenas eu era possuidor. E, no entanto, não era de todo certo que um de vocês, ao perceber que eu conhecia a vossa verdade, quisessem a minha assistência e orientação, ou eu por sinal a vossa; quer dizer, facilmente iriam sentir-se ultrajados e amedrontados por eu conhecer a vossa verdade, ainda que para vosso bem. O que tanto vale para dizer que a amizade entre duas pessoas reclama a verdade - e a assistência recíproca em nome da verdade -, mas é constantemente ameaçada por essa verdade. E receio que não haja nisto grande saída.

12/03/2012

Terceira via

Ou amamos ou nos amigamos, parece que não existem outras alternativas. Mas ainda vamos a tempo de perceber que aquilo que pensávamos ser uma amizade não era mais que uma forma de reverência.

Figura de estilo

Tentei argumentar que amizade é demasiadas vezes apenas um nome conveniente que, faltando-nos melhor, arranjámos para definir outros estados, outras coisas, outras dependências. Assim como uma figura de estilo. Devemos interessar-nos pelo mundo que está para além da amizade se queremos compreender a amizade.

29/12/2011

Manual de instruções


Don't feel so ashamed
To have friends

11/08/2011

A estrela da amizade

O contrário da amizade não é tanto a inimizade mas a estranheza. Dois amigos perdem a amizade quando deixam de se reconhecer um ao outro; quando optam por caminhos diferentes, habitantes de um mundo já que não partilham. E mesmo que tais caminhos se cruzem, como pode sempre acontecer, elescontinuarão a ser  distantes e irreconciliáveis. "Que havemos de nos tornar estranhos é a lei em cima de nós", escreve Nietzsche em A Gaia Ciência. "Pelo mesmo motivo, deveremos tornar-nos mais veneráveis um para o outro, e a memória da nossa amizade ainda mais sagrada". Este é um fragmento consolador no qual comecei a pensar quando me apercebi de que também tenho as minhas amizades antigas, alienadas, dependentes da mesma lei da Gaia Ciência. A consolação está em que eu também posso imaginar essas amizades perdidas como memórias ou estrelas que assiduamente me visitam. Deverei por isso respeitá-las.

01/06/2011

O não-encontro

Dois amigos podem decidir encontrar-se. Acontece com imensa frequência. Mas dois amigos podem também escolher não se encontrar. Estão no mesmo espaço, percebem a presença um do outro, intuem que foram vistos, mas simulam uma distracção plausível e disfarçável. No fim, optam por não se manifestar. Não sendo um acaso e menos uma coincidência, este não-encontro nasce de uma decisão comum, ou de duas decisões comuns. Fechei os olhos ao meu amigo. Triste a amizade que é feita destes não-encontros.

26/12/2010

Selecção natural

Não sabemos o que esperar de uma amizade antes de testarmos o nosso próprio instinto de sobrevivência e o dos outros. Antes de percebermos se queremos ser vítimas na amizade, ou se temos espaço para uma agressão justa e retributiva à agressão.

Quando os dois nos desentendemos com violência e eu disse o que não devia e me arrependi logo daquilo que disse, tentei recuar para um estado que permitisse alguma reparação. Depressa percebi que era impossível. Eu podia ser vítima se ela também escolhesse ser vítima ou agressor se ela também fosse agressora. É o que explica que em certas amizades as zangas entre amigos acabem resolvidas de um modo virulento, aberto, sem concessões. Têm mesmo de ser. Vítima contra vítima, agressor contra agressor.

O que não podia acontecer era eu assumir-me como vítima para ela responder como agressora, nem ela insistir em ser vítima diante da minha agressão. Nesse caso, só havia uma coisa sensata a fazer, talvez por falta de alternativa: terminar a amizade. Chamemos-lhe a selecção natural dos amigos.

16/09/2010

Lógica

Até o mais refinado teórico da beleza comete infracções à lógica , como dizer que L. é uma mulher atraente mas que nunca quereria nada com ela por ser sua amiga.

A árvore



A árvore pode ser vista de muitas maneiras, de muitos ângulos. Mas quem está debaixo da árvore não vê a árvore.

14/09/2010

Colisão

Podíamos ter evitado a colisão, é certo. Se tivéssemos sabido desviar-nos, eu para a esquerda, ela para a direita. Ou se nem sequer nos tivéssemos cruzado naquele tempo e lugar. Mas nenhum de nós me pareceu um condutor experiente. Nenhum de nós conhecia propriamente as estradas. O piso molhado, o nevoeiro baixo fizeram o resto. Não percebemos que o outro se aproximava. De repente, era tarde.

O philoi, oudei philos

Dizem que Aristóteles se lamentou um dia da seguinte maneira: ó amigos, não há amigos. A expressão ficou. E ainda hoje batalhões de investigadores tentam decifrar o que Aristóteles queria dizer com aquilo. É um queixume muito frequente na amizade. Uma pessoa rejeita a existência dos amigos, ao mesmo tempo que os invoca e se dirige a eles. Uma contradição aparente. Não temos relatos sobre as reacções dos amigos de Aristóteles. Mas é provável que tivessem pensado que Aristóteles era um grande fiteiro. Pensem com cuidado: as nossas decepções com amigos podem ser o nosso teatro privado de máscaras e representações.

Em resumo

A intimidade perdida com o meu amigo, uma amizade recente que não chegou a ser, equívocos e desconfianças, portas semi-abertas da saída onde julguei por momentos ver a entrada.

24/06/2010

Metafísica da amizade

Friendship is just a proximity that resists conceptualization and representation (Agamben). Se Agamben estivesse certo, não poderíamos pensar a amizade como um conceito anterior a qualquer forma de experiência. Seríamos obrigados a vê-la como um facto (algo de que estamos perto, uma vivência) e não como uma categoria (aquilo que representamos, criamos ou construímos). Um amigo não seria um 'algo', não teria nenhuma qualidade ontológica ou descritiva, não seria categorial mas vivencial. Um amigo limitar-se-ia a estar, a coexistir, a con-sentir, a sua existência partilharia a nossa existência. Se Agamben estivesse certo, não poderíamos imaginar a amizade como uma metafísica, uma ideia, um platonismo. No entanto, Agamben não pode estar certo, porque a amizade nunca deixa de ser para nós um espaço mental onde construímos e ficcionamos os nossos gostos e dependências. As teorias da amizade são um obstáculo à amizade, escrevi aqui há meses. O que é bem diferente de uma amizade sem teorias. Cada um vive as suas amizades dentro de si.

Uma competência (2)

Os homens que vivem sem a companhia das mulheres, que não aprenderam a estar com as mulheres, parecem quase sempre distantes, senão mesmo incompetentes para os códigos da amizade. Umas vezes porque adquiriram uma amargura e um ressentimento que retraem os amigos. Outras vezes porque viver pacificamente sem as mulheres, celibatários em primeira ou segunda mão, significa que nunca se sentiu na pele um certo tipo de dependência.

Quase sempre, as nossas melhores amizades só nos surgem depois de termos estado apaixonados e não antes. É a amizade que é um sucedâneo do amor e não o contrário. Porque no princípio pensámos que o amor chegava .

Granizo

Está tudo bem, eu e o meu amigo conversamos horas, rimos, celebramos, ouvimo-nos em voz baixa, descobrimos os nossos defeitos comuns. E de repente, a terminar a noite, uma frase fora do sítio, implacável, sinceridade a mais, sensibilidade a mais, cinzas que resolvem cair, o granizo da amizade.

15/06/2010

Uma competência (1)

Se a amizade for uma competência, como explicar que uns a tenham em excesso, enquanto outros precisem de ser ensinados? Como explicar esse desnível de aptidão, talento, esforço, essa necessidade variável entre os amigos, seja qual for a palavra que o caracterize com propriedade. Existe uma competência para a amizade que não foi bem distribuída no mundo, mas não estamos seguros porquê, nem daquilo que precisamos para a adquirir. 

14/06/2010

A reunificação

Uma pessoa passa a vida a criar amizades dispersas que nunca se cruzam. Os amigos de infância, da universidade, do trabalho. Essas amizades representavam facetas e contextos diferentes da nossa vida social. Faziam da amizade como que uma experiência heteronímica. Sucede porém que as redes sociais como o Facebook anulam praticamente todas essas fronteiras. Reunindo todos os amigos numa só categoria, as redes sociais contribuem para reunificar a nossa personalidade múltipla. E sem os nossos velhos muros de segurança, ficamos mais expostos e vulneráveis.

13/06/2010

Casamento

Os amigos conhecem-se, para que sejam amigos. Os casados nem tanto: para que se mantenham casados.

08/06/2010

Contra o amor romântico

O maior inimigo da amizade é o amor; o amor romântico que despreza todos os outros bens. Foram os românticos que destruíram a amizade.

A amizade trágica

Admitamos então que a amizade só pode ser a amizade possível. A dúvida está em saber: possível em relação a quê? Em relação a uma amizade mais ética ou mais perfeita? 

No nosso caso, decidimos que a amizade será de facto a possível, mas apenas porque ambos sabemos que facilmente ela acabaria por se perder noutra coisa. Então, fizemos uma escolha preventiva: optámos por fazer da nossa amizade numa experiência de fronteiras e possibilidades bem definidas. Como amigos não seremos mais do que somos, uma vez que sabemos que poderíamos transformar-nos em mais. Devemos arruinar uma amizade possível com um amor possível? Não sei se me entendem. E no entanto, é verdade que só conseguiremos viver uma amizade possível se a alimentarmos em permanência com a ideia de um amor possível. Esse equilíbrio é o mais difícil de obter. A amizade possível é por isso a amizade trágica.