25/09/2009

Camaradas














There are no friendships at the top. -
Lloyd George.

Pode haver na amizade na política? Pode. Mas nunca sobrevive muito tempo à força devoradora da ambição. Este magnífico livro do historiador inglês Graham Stewart explica o mais recente caso das escutas a Belém lido e analisado a partir de três casos semelhantes que ocorreram em Inglaterra, França e Estados Unidos. Sim, a política dá cabo da amizade. A História repete-se.

24/09/2009

As amizades especializadas

Isso que chamamos de eu é o quê? Todos precisamos de amizades especializadas. Pessoas que criam amizades com propósitos definidos: praticar natação sincronizada, ouvir a música do Cat Stevens, debater programas políticos. Os amigos servem para certas alturas, no sentido rigoroso em que aquilo que fazemos com uns, não fazemos com outros. Não existem limites à especialização. Os amigos do ténis ou de qualquer passatempo domingueiro não são os que encontramos nos congressos sobre poesia francesa. A vida é pensada e organizada como uma colecção de ficheiros. E a única maneira de garantir a sobrevivência dessas amizades diferenciadas, como lhes chamou Simmel, é evitar que elas se misturem, que se contaminem pelo conhecimento recíproco. As amizades especializadas impõem-nos uma cultura do segredo para nos protegermos e para protegermos os nossos amigos. Não são fáceis de gerir. Mas sem amizades especializadas não pode existir sociedade. 

Aforismos de campanha

Amizade não dispensa boas maneiras.

Se somos inseguros, continuaremos inseguros. Com amigos ou sem amigos.

Amigo não é quem acha que nos pode dizer tudo; amigo é quem sabe dizer o que nos deve dizer.

23/09/2009

O melhor amigo

Mas em António e Cleópatra, Marco António tem ainda outro amigo, Enobarbus, que se distingue de todos os outros. Enobarbus é o único amigo de Marco António que lhe pode falar em privado, usando de alguma intimidade e liberdade. Depois, enquanto os outros reprovam a "asfixia amorosa" que Cleópatra representa, Enobarbus aparece sobretudo como o primeiro defensor da paixão suicida. 

Enobarbus só tem, de facto, elogios para Cleópatra.

...her passions are made of nothing
but the finest part of pure love.

E só tem elogios para a relação entre os dois, que o resto do mundo maldiz.

When she first met Marc Anthony, she 
pursed up his heart, upon the ryver of Cydnus.

Os críticos de Shakespeare, segundo sei, interpretam que talvez o próprio Enobarbus estivesse apaixonado por Cleópatra. Não entro na polémica, embora me pareça plausível. Os melhores amigos disputam às vezes, com consequências trágicas, as mesmas mulheres. Todos os dias nos jornais saem casos desses.

Mas aqui, mais do que isso, interessa-me o papel de Enobarbus como o melhor amigo de Marco António. O único com permissão para dizer a Marco António, com tacto e liberdade, tudo o que os outros não dizem. O único que acredita na felicidade lúdica que Marco António está a viver com Cleópatra, como se fosse a sua. Reconhecem os vossos melhores amigos?



22/09/2009

As duas fidelidades

A primeira vez que encontramos Marco António e Cleópatra, logo no começo da tragédia, ouvimos o julgamento severo dos amigos. Admiram Marco António, recordam os seus feitos, a sua impecável coragem. Mas, ao verem-no num estado epiléptico por Cleópatra, profetizam que essa relação o acabará por destruir. Os amigos temem que Marco António se afaste dos seus deveres e responsabilidades, perdendo-se numa vida de imoderação amorosa, pondo em risco a segurança de Roma. E tudo por um delírio.

Na verdade, esse receio é justificado. Apaixonado por Cleópatra, Marco António subverte num instante todas as suas relações. Há uma cena memorável em que um mensageiro vindo de Roma visita Marco António no Egipto e Cleópatra percebe que ele fica oprimido por receber notícias de Roma, como se estivesse dividido entre duas fidelidades: a sua fidelidade a César (ou à mulher que deixou) e a sua fidelidade a ela, Cleópatra. 

Uma mulher nestas alturas, o que faz? A arte da manipulação, pois claro. Cleópatra, ciumenta, tenta atrair toda a atenção de Marco António. E ele, para a tranquilizar, repete estes versos famosos:

Let Rome in Tiber melt, and the wide arch
Or the rang'd empire fall! Here is my space

Que é como quem diz: Roma que se afunde no Tibre, o Império também se pode lixar e eu, como diz o outro, por aqui fico. Este é o meu espaço. Já não sou Marco António.