30/09/2009

Regimes despóticos




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A amizade e o amor são ambos despóticos nas suas exigências. O amor é um despotismo absoluto; a amizade um despotismo benevolente.

Felizmente, outros foram capazes de o dizer melhor do que eu:

The friend is similar to the lover in his recognition of his incompleteness and his need for exclusive attachment to another human being in order to attain fulfillment. Friendship, too, is imperious in its demands, but the experience of friendship is gentler, soberer, without frenzy. It, unlike love, is necessarily reciprocal. You can love without being loved in return, but you cannot be the friend of one who is not your friend. Friendship, which seems for a variety of reasons to be easier, is actually rarer. Its pleasures are wholly spiritual, and the self-overcomings required for it are not powered by bodily passions.

Allan Bloom, Love and Friendship

Amigos passionais

O trágico da vida na amizade é que nem sempre se distingue, com clareza, da vida no amor. Muitas vezes, a vida na amizade enfrenta reacções, medos ou ansiedades que são semelhantes aos da vida no amor. É como se a amizade ambicionasse a ser mais daquilo que é e acabasse vítima dos mesmos males que costumamos encontrar no estado amoroso: ciúmes, sentimento de posse, desconfiança, queixumes, reclamações. Amigos ciumentos, possessivos, desconfiados, ressentidos, são o que mais há por aí. Ninguém disse que a amizade, tal como o amor, não implicava misteriosos perigos passionais.

Quando estamos apaixonados, a primeira das nossas inquietações é não termos certeza se vamos ser correspondidos. Se ao menos nos amarem tanto como nós dizemos que amamos, não haverá ressentimentos contra ninguém e o amor durará resistentemente o tempo todo. Quando somos amigos, a nossa dúvida mais profunda é se gostarão de nós com o mesmo grau de aceitação que estamos dispostos a partilhar. Se ao menos formos recebidos como queremos receber, se nos aceitarem na proporção do que nós aceitamos, poderemos ficar tranquilos que a amizade será uma experiência limpa e sem remorsos.

Na amizade e no amor, estamos sempre à espera que nos correspondam, que nos tragam o que ainda não temos, que satisfaçam os nossos desejos de reciprocidade.  

E se isso não acontecer, o mais certo é que ficaremos mesmo ressentidos, amargos, conflituosos. Amigos passionais que a qualquer altura largarão as suas frustrações.

Bem sei que ninguém mata por amizade, ao passo que as cadeias estão cheias de amores não correspondidos. Mas é só porque nas amizades frustradas o desespero é mais contido. No resto, podem crer que os amigos passionais e os amantes passionais fermentam na mesma incubadora de ódio. 

29/09/2009

A cada um o seu lugar

Às vezes os amigos confrontam-nos sobre outros amigos, perguntando, num tom de censura e desilusão, como é que podemos ser amigos deles, como é que explicamos a nossa notória incoerência. 

Claro que são eles os incoerentes; são eles que não percebem que a amizade não é um concurso de lógica mas uma experiência intencionalmente desordenada e irracional. As amizades contraditórias são mais que necessárias: são as únicas possíveis. 

"Quem sou eu?" não é pergunta que se faça na amizade. Os amigos devem ter a delicadeza de deixar essa pergunta suspensa. A cada um dos nossos amigos o seu exacto lugar. 

28/09/2009

Os amigos dos amigos

Na taxonomia das amizades, os amigos dos amigos são talvez a categoria mais equívoca. Não são nossos amigos, mesmo por inerência, mas também não são meros conhecidos, daqueles que vemos de passagem na rua e agraciamos por polidez. Os amigos dos amigos deviam ser em teoria também nossos amigos. Por extensão, por lógica, pela natureza das coisas. Mas quase nunca é assim. E se na maioria dos casos os amigos dos amigos não passam para nós de completos estranhos é talvez porque aquilo que vemos nos nossos amigos é só uma parte ampliada do que eles são. Com algumas excepções, a amizade é sempre uma escolha selectiva, porque escolhemos os amigos contra outras pessoas mas também, coisa irónica, porque os escolhemos contra eles próprios. 

26/09/2009

Bússola eleitoral

Patriotas. My country, right or wrong. 

Democratas. My party, right or wrong. 

Mafiosos. My friends, right or wrong.