Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: a rejeição. Julgar se uma amizade merece ou não ser vivida.
25/10/2009
A rejeição
Aconteceu-me uma vez rejeitar um amigo. Creio que uma única vez. Uma recusa explícita, por motivos de segurança ou por achar que eu devia estar primeiro. Quando penso nisso, arrependo-me, envergonho-me. Era uma noite de Julho num dos verões longos que passei em Santa Margarida. O meu amigo estava a cumprir serviço militar. Não tinha jeito nenhum para aquilo. Queria ser médico, sentia urgência em tratar da vida. Tímido, medroso, delicado, via-se que lhe custava ter de obedecer a quem supunha abaixo dele. Eu percebi tudo; não foi difícil. Percebi não só como ele era, mas também porque estava em sofrimento num ambiente de falsas patentes e reputações. Percebi aquela ansiedade porque era igual à que eu próprio trazia. Porque ele não era bem ele. Ele era eu.
O mais natural era pois que nos tornássemos amigos, uma vez que gostávamos de estar um com o outro e eu me revia nas suas características. Mas não tornámos. Eu andava nessa altura numa guerra frenética comigo mesmo. Não havia tréguas possíveis. A fraqueza do meu amigo, por ser também a minha, eu não a suportava. Nas poucas alturas de maior intimidade que tivemos entre os dois, desviei-me sempre e abortei qualquer exposição que pudesse vir da minha parte. Aquela amizade pedia tudo ou nada. Ou seríamos íntimos, ou estranhos. Não havia terceiras-vias. Esta rejeição é uma das minhas culpas inapagáveis.
Transacções
Segundo Ian Buruma no seu mui recomendável "Murder in Amsterdam" - o relato do assassinato do cineasta holandês Theo Van Gogh -, este conseguia ser um amigo leal embora exigisse inequívoca lealdade em troca.
23/10/2009
Um amor envergonhado
Digamos porque não se chama ao amor amizade. Entre as duas coisas há esta diferença: o amor é uma paixão que tem mais de desejo que de prazer; e a amizade é uma afeição reverente, ou um amor envergonhado, que tem mais de prazer do que de desejo. O amigo pretende para o que sempre ama, e o amante para o que pode deixar de amar. Um cuida de si, outro descuida-se de si.
A Arte Da Galantaria, D.Francisco de Portugal
(Obrigado, Nuno, tão maravilhosamente escrito isto).
Aforismos de campanha
Há os que só conseguem ser amigos daqueles que verdadeiramente não respeitam muito.
O que sabemos dos nossos amigos? Talvez mais do que eles gostariam, talvez menos do que precisaríamos.
Amigos que desconfiam por sistema de outros amigos. Pistoleiros com a mão no coldre sempre à espera, no momento do disparo, de alegar legítima defesa, embora dessa vez não houvesse ataque.
A boa-vontade
De todas as definições que pesquisei, creio que apenas Cícero se refere à amizade como um acordo completo entre duas pessoas unidas pela boa-vontade. Quase tudo o resto presente nas definições nós já conhecemos e pode ser lido no dicionário mais próximo: afecto mútuo, confiança, companheirismo. Mas a boa-vontade é um preceito mais exigente, porque pressupõe - e não consigo dizer isto de outra maneira - uma disposição consequente e translúcida para agir à altura da amizade, para fazer as coisas bem. Na biografia duma amizade experimentaremos muitas vezes períodos de desconfiança, remorso, distanciamento. Mas a boa-vontade não se pode extinguir porque se se extinguir é sinal de que andamos enganados e a enganar os outros. A boa-vontade parece ser tudo, vou anotar.
19/10/2009
Em defesa da rotina
Joseph Brodski em "In Praise of Boredom" (tem o meu voto para o concurso dos melhores ensaios de sempre):
But, whether rich or poor, you will inevitably be afflicted by monotony. Potential haves, you'll be bored with your work, your friends, your spouses, your lovers, the view from your window, the furniture or wallpaper in your room, your thoughts, yourselves. Accordingly, you'll try to devise ways of escape. Apart from the self-gratifying gadgets I mentioned before, you may take up changing your job, residence, company, country, climate; you may take up promiscuity, alcohol, travel, cooking lessons, drugs, psychoanalysis.
In fact, you may lump all these together, and for a while that may work. Until the day, of course, when you wake up in your bedroom amidst a new family and a different wallpaper, in a different state and climate, with a heap of bills from your travel agent and your shrink, yet with the same stale feeling toward the light of day pouring through your window.
É da natureza da amizade ser monótona, cansativa, repetitiva. Sempre os mesmos amigos, os mesmos temas, as mesmas conversas. Ao fim de algum tempo cansamo-nos mesmo dos amigos; e precisamos de outros como cura para esse aborrecimento. Até nos aborrecermos outra vez e irmos à procura dos primeiros, como se aquele distanciamento nunca tivesse ocorrido nem sequer na nossa cabeça. Nas amizades mais sólidas andamos sempre a largar e a reencontrar os mesmos amigos. A amizade não é um desporto radical.
A amizade também funciona a pilhas; liquida-se em prestações suaves; cria rotinas por consentimento mútuo. Todos aqueles que abominam rotinas costumam dar-se mal com a monotonia da amizade. Já vi muita gente perder-se apenas porque interpretou os primeiros sintomas de saturação na amizade como decadência irremissível, começando a agir como se a amizade estivesse no fim. Os amores monótonos podem ser amores em crise; mas as amizades monótonas não são amizades em crise. São amizades robustas e prontas para se cansarem tantas vezes quanto for possível. Quando começarem a sentir a superstição da monotonia na amizade só têm uma coisa a fazer: desligar o telefone, dizer as despedidas. É um pouco aquilo que Jorge Luís Borges dizia: "hoje fingimos que nos separamos, mas ver-nos-emos amanhã".
09/10/2009
Um caso concreto
Como Tchekhov era escritor, sabia que tudo o que as pessoas dizem sobre o amor pode ser poetizado e enfeitado. (Se não existisse a ideia do amor, muitos talvez nem sequer se apaixonariam). Mas como também era médico, achava que só podemos perceber o sentimento amoroso individualizando e desfiando cada caso concreto.
No conto que tem o título "Sobre o Amor", Tchekhov escreve isso mesmo:
Uma explicação que, aparentemente, serve para um caso já não se aplica a dez outros, e o melhor, a meu ver, é esclarecer cada caso em separado, sem tentar generalizar.
Não há nenhuma razão para não aplicarmos o mesmo princípio à amizade. Podemos pensar que sendo a amizade naturalmente poligâmica as explicações e os sintomas tendem a repetir-se, superficiais que também são. Mas essa ideia é um erro. A amizade, tal como o amor, é sempre um caso concreto.
08/10/2009
Network society
A amigo B casado com C amigo de D inimigo de A apaixonado por E hostil a B.
Esta complicação de relações em rede é bastante comum neste tempo em que as nossas amizades se formam em primeira, segunda e, por vezes, terceira mão. E são sempre difíceis os dilemas éticos que daqui resultam.
Reparem que para proteger a segurança dos seus círculos pessoais, A, B e C enfrentam situações de óbvio desconforto. D e E são os perturbadores da série. Todos são obrigados a defender as suas relações contra mal-entendidos, danos indirectos, encontros evitáveis, ao mesmo tempo que estabelecem hierarquias racionais entre maridos, mulheres e amigos.
O resultado final acaba por ser um pouco este: C precisa de ser cuidadoso na sua relação com D de maneira a não atingir A e, por reflexo, também B. A é obrigado a gerir a sua relação com E, salvaguardando sempre a posição de B. E quanto ao próprio B, está metido entre duas frentes de tensão: A e C e A e E. Esse não tem um destino fácil.
Bem sei que isto parece um puzzle de peças que não encaixam. Nos tempos que correm, quando toda a gente está cada vez mais perto de toda a gente, a amizade deixou de ser uma experiência puramente individual, sujeita quando muito às regras do bom-senso. Tornou-se, digamos assim, uma técnica de gestão política.
07/10/2009
Mãe-natureza
Nature assigns the Sun -
That - is Astronomy -
Nature cannot enact a friend -
That - is Astrology.
Emily Dickinson
Doenças da amizade
O século XIX mostrou as doenças do amor, como o romantismo e os suicidas. O século XX trouxe as doenças do sexo, como a sida e a impotência por motivos de stress profissional. Neste nosso obscuro século XXI as novas doenças só podem ser as da amizade. Porque são as únicas de que todos sofremos em silêncio e as únicas que ninguém investigou.
Histórias da amizade
Há amizades que morrem pela velhice e pelo tempo. Outras terminam por nunca saírem do estado de juventude e imaturidade. Nuns casos sofremos, noutros não: somos nós até que declaramos o óbito. Nunca sabemos, ao começar uma amizade, como é que vai ser dessa vez; não conseguimos antecipar o que quer que seja. Na amizade, toda a sabedoria que adquirimos, quando a adquirimos, é sempre histórica e retrospectiva. Não existe uma filosofia da amizade. Quando muito, existem histórias da amizade. Vivemos segundo o passado.
Quinze minutos
No sábado dei com um conhecido meu já não sei bem onde. Amigo de uma amiga, conheci-o uma vez à porta do teatro; falámos um bom bocado. Não fiquei com nenhuma opinião sobre ele. Mas reencontrei-o neste sábado e posso dizer que foi penoso. Vi que já não tinha muito para lhe dizer. Por mais que me esforçasse, não saía nada. E logo percebi porque estava eu ali num esforço meio-fundista lutando por uma frase e não aparecia nada: os meus 15 minutos de conversa com o sujeito tinham sido usados no dia em que nos conhecemos.
Andy Warhol antecipou em tempos que, na sociedade do espectáculo e da televisão, todos teríamos os nossos 15 minutos de fama. Eu acrescento que todos teremos também 15 minutos de conversa com cada ser humano que nos passar pela frente. Quinze minutos em que trocamos delicadezas, comentamos amenidades, fazemos perguntas catalogadas. E depois acaba o tempo. Ouvimos os acordes da despedida, ao mesmo tempo que alguém sugere um almoço que nunca se irá realizar.
É sempre difícil os nossos 15 minutos de vida social gerarem uma amizade. Ou hesitamos nós, ou hesitam os outros. Talvez porque aprendemos à nossa custa que a amizade não é um bilhete de ida e volta e ninguém quer arriscar um destino incerto.
06/10/2009
They know me better than that
I heard it from my friends
About the things you said
But they know me better than that
They know me better than that
They know my weaknesses
(...)
How can a view become so twisted?
Depeche Mode, "The Things You Said"
Dicionário
amizade: s. f.
1. Afeição recíproca entre dois entes.
3. Concordância de sentimentos ou posição a respeito de algum facto.
3. Boas relações.
4. Aliança, acordo ou pacto.
5. Atitude ou gesto de benevolência.
Esclarecidos? Nem por isso.
Responder ou não responder
Toda a amizade começa por uma pergunta indiscreta; uma pergunta que atiramos a outra pessoa, como um teste ou uma ousadia. Mas nunca sabemos como é que ela irá reagir. Uns conseguem fugir da pergunta, fugindo assim também da amizade que acabámos de propor. Outros respondem entalados em reservas e sensibilidades; e uma parcela mais excepcional chega a responder com aspereza, provavelmente ofendida pela nossa invasão. Talvez por isso, a linha que separa a amizade do desentendimento é quase sempre muito estreita. Um amigo é sempre alguém que nos respondeu como queríamos da primeira vez; alguém que começou por nos perceber.
05/10/2009
Temporary sort
Subscrever:
Mensagens (Atom)



