26/10/2009

"A amizade que é uma proximidade" (Agamben)



O que é a amizade? Amizade é isto: eles estão tão próximos um do outro que mal se conseguem distinguir.

(Giovanni Serodine, I Santi Pietro e Paollo sulla via del martirio (1625), Museu de Arte Antiga de Roma).

Intimidade

Poucos momentos nos incomodam tanto numa conversa como a intimidade que não pedimos ou não desejámos saber. Encaramo-la como informação a mais, disfarçamos quase sempre o nosso desagrado, e tentamos impedir à partida o que o outro tem para dizer. Detestamos ser surpreendidos por confissões que nos parecem descabidas e deslocadas.

Se os segredos alheios nos oprimem não é porque nos consideramos indignos desses segredos; nem porque os outros são indignos de nos ter como ouvintes. O que pensamos é que todas essas revelações a despropósito nos atiram para uma relação sem saída. Antes que mostrássemos vontade de entrar, já fomos expropriados da possibilidade de sair, pelo menos sem provocar danos nas expectativas dos nossos amigos.

Confio-te aquilo que não me pediste para receber a confiança que me não podes dar. Um belo paradoxo.

A intimidade forçada pretende obrigar-nos à amizade forçada. Mas a amizade não é um dever. A amizade é um direito.

25/10/2009

A rejeição (2)

Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: a rejeição. Julgar se uma amizade merece ou não ser vivida.

A rejeição

Aconteceu-me uma vez rejeitar um amigo. Creio que uma única vez. Uma recusa explícita, por motivos de segurança ou por achar que eu devia estar primeiro. Quando penso nisso, arrependo-me, envergonho-me. Era uma noite de Julho num dos verões longos que passei em Santa Margarida. O meu amigo estava a cumprir serviço militar. Não tinha jeito nenhum para aquilo. Queria ser médico, sentia urgência em tratar da vida. Tímido, medroso, delicado, via-se que lhe custava ter de obedecer a quem supunha abaixo dele. Eu percebi tudo; não foi difícil. Percebi não só como ele era, mas também porque estava em sofrimento num ambiente de falsas patentes e reputações. Percebi aquela ansiedade porque era igual à que eu próprio trazia. Porque ele não era bem ele. Ele era eu.

O mais natural era pois que nos tornássemos amigos, uma vez que gostávamos de estar um com o outro e eu me revia nas suas características. Mas não tornámos. Eu andava nessa altura numa guerra frenética comigo mesmo. Não havia tréguas possíveis. A fraqueza do meu amigo, por ser também a minha, eu não a suportava. Nas poucas alturas de maior intimidade que tivemos entre os dois, desviei-me sempre e abortei qualquer exposição que pudesse vir da minha parte. Aquela amizade pedia tudo ou nada. Ou seríamos íntimos, ou estranhos. Não havia terceiras-vias. Esta rejeição é uma das minhas culpas inapagáveis.

Transacções

Segundo Ian Buruma no seu mui recomendável "Murder in Amsterdam" - o relato do assassinato do cineasta holandês Theo Van Gogh -, este conseguia ser um amigo leal embora exigisse inequívoca lealdade em troca.