06/11/2009

Saltamos a parte da amizade

11 a.m. I come across an ad from a sincere-looking South Asian fellow and respond. The fellow responds with a number. I call and we agree to hook up for drinks.

6:17 p.m. The fellow and I do a 69.

(Uma das entradas dos diários sexuais dos nova-iorquinos que a New York Magazine tem publicado no seu site).

02/11/2009

Buddies



"Husbands" (1970), John Cassavetes.

01/11/2009

Uma amiga minha

Estou a pensar numa amiga minha, como ela é não só aquilo que acha que é, ela é também aquilo que os amigos acham dela, e aquilo que a família acha dela, e até aquilo que ela é aos olhos de simples conhecidos e completos estranhos. Sobre certas coisas, os amigos têm uma opinião e ela outra. Ela acha, por exemplo, que tem excesso de peso e que não é tão educada como deveria ser, mas os amigos sabem que ela é perfeitamente magra e mais educada do que a maioria de nós. Sobre outras coisas ela está de acordo, por exemplo que é uma companhia divertida, gosta de ser pontual, gosta que as outras pessoas sejam pontuais, e não é muito organizada na limpeza da casa. Talvez seja verdade que as coisas sobre as quais nós todos concordamos fazem parte daquilo que ela realmente é, ou daquilo que ela realmente seria se existisse isso de ela ser aquilo que realmente é, porque quando vou à procura daquilo que ela realmente é, só encontro contradições em tudo: mesmo quando ela e os amigos concordam sobre alguma coisa, pode não parecer tão certo para um simples conhecido, que pode achar que a companhia dela é aborrecida ou os seus quartos demasiado arrumados, e nem sequer estará completamente errado, visto que há alturas em que ela é mesmo aborrecida, e outras alturas em que ela mantém a casa limpa, embora essas alturas nunca sejam as mesmas, pois ela não consegue ser organizada quando se sente aborrecida.

Sendo isto tudo verdade sobre a minha amiga, ocorre-me que também eu posso não saber inteiramente aquilo que sou, e que os outros podem saber coisas sobre mim melhor daquilo que eu sei, embora pense que só posso ser eu a saber tudo aquilo que há para saber e viva como se soubesse. Mesmo me apercebendo disso, porém, não tenho outra escolha senão continuar a viver como se soubesse inteiramente aquilo que sou, embora de vez em quando poderei também esforçar-me só por adivinhar aquilo que os outros sabem que eu não chego a saber.

(copyright Lydia Davis, "A Friend of Mine", The Collected Stories of Lydia Davis, tradução deste vosso criado que não se responsabiliza por eventuais falhas).

30/10/2009

A desamizade corrigida

Entre amigos não é preciso justiça, mas as pessoas justas continuam a precisar da amizade.

É uma das frases mais citadas de Aristóteles, extraída da sua Ética a Nicómaco. O que diz Aristóteles é que os amigos não precisam da justiça porque já estão de certo modo acima: são amigos, e por terem atingido esse lugar cimeiro, já possuem a última virtude. Diversamente, os justos ainda precisam da amizade e os injustos precisam mesmo das duas qualidades: da justiça e da amizade.

Se Aristóteles tiver aqui razão e admito que tenha, precisamos de enfrentar as suas consequências. Sendo a amizade um bem superior à própria justiça, todos os problemas de que uma amizade em concreto possa padecer, todas as situações de desamizade, não poderão ser resolvidos tal como se resolvem as injustiças. Uma injustiça ainda poderá ser corrigida com justiça; é até normal que assim seja. Mas poderá uma desamizade ser corrigida com amizade? Quando um amigo se desilude com outro, ou quando um amigo conspira contra outro, poderão tais desamizades ser corrigidas com amizade? Não: empiricamente, uma desamizade, ao contrário de uma injustiça, não poderá ser suprida com amizade. Uma desamizade significa justamente a ruptura da amizade, mas uma injustiça não representa a ruptura da justiça. Bem sei que Aristóteles nunca falou de desamizade. Só que se existe justiça e injustiça, é normal que também exista amizade e desamizade. Certamente que Aristóteles, tendo pensado em tudo, pensou também nesse assunto.

Por isso, a frase de Aristóteles também poderia ser dita da seguinte maneira: Entre amigos não é preciso justiça, mas entre ex-amigos é aconselhável.

Princípio da desigualdade

Não devemos esperar que a amizade seja uma convenção entre iguais. A amizade só pode ser uma experiência desequilibrada e anti-igualitária. Para não fracassar é preciso que duas pessoas aceitem, com tolerância e resignação, o seu lugar na hierarquia. Um mais inteligente do que o outro. Um mais bonito do que o outro. Um mais rico do que o outro. Se formos suficientemente lúcidos, tomaremos consciência dessas diferenças sem deixar que elas nos atinjam e sem nunca as exibirmos como arma. Faz parte da amizade manter certas reservas, certos silêncios.

O que sabemos melhor sobre a amizade é que nunca pode ser uma democracia. Quando muito, a amizade é uma aristocracia aberta, porque os aristocratas de uma amizade podem perfeitamente ser os camponeses de outra. Na amizade ninguém tem poder o tempo todo.