Converso ao telefone com o meu amigo A.. Fico com a impressão de que ele mede cada palavra e ao mesmo tempo omite tantas outras. Tudo, até as pausas entre as quais vou respirando, me soam a conveniência deslocada, a diplomacia excessiva. Sou um defensor do tacto nas amizades mas não de um certo tipo de pacifismo afectado e profissional. Como nos casamentos mais bem-sucedidos, às vezes as amizades também precisam de uma "bofetada" libertadora. Não, evidentemente, de uma bofetada literal, mas de uma espécie de agressividade velada que deve existir em todas as relações humanas. Não há mal nenhum em recebermos uma bofetada dos amigos quando nos pusemos a jeito e se for essa a única forma de encararmos a realidade. O pior, citando alguém, é só mesmo o som.
09/11/2009
06/11/2009
O cérebro

Como funcionará o cérebro na amizade? Que mudanças, variações químicas, nódulos, tremores nervosos? Se existe uma neurociência para o amor, também tem de existir para a amizade. Certamente que alguém deve andar a estudar o assunto cheio de testes e radiografias. Qual será, por gentileza, a parte do cérebro responsável pelas funções da amizade? Os neurotransmissores respondem da mesma maneira, registam diferenças entre as pessoas com e sem amigos? Desconheço tudo. Claro que a amizade pode nem ter impacto suficiente para atingir o cérebro. Seria apenas uma impressão consumida por outras impressões. Mesmo assim hesito. Tem mesmo de haver alguma coisa, uma fisiologia própria, um movimento imperceptível. A amizade não pode ser apenas uma fotografia que vimos de relance.
Saltamos a parte da amizade
11 a.m. I come across an ad from a sincere-looking South Asian fellow and respond. The fellow responds with a number. I call and we agree to hook up for drinks.
6:17 p.m. The fellow and I do a 69.
(Uma das entradas dos diários sexuais dos nova-iorquinos que a New York Magazine tem publicado no seu site).
02/11/2009
01/11/2009
Uma amiga minha
Estou a pensar numa amiga minha, como ela é não só aquilo que acha que é, ela é também aquilo que os amigos acham dela, e aquilo que a família acha dela, e até aquilo que ela é aos olhos de simples conhecidos e completos estranhos. Sobre certas coisas, os amigos têm uma opinião e ela outra. Ela acha, por exemplo, que tem excesso de peso e que não é tão educada como deveria ser, mas os amigos sabem que ela é perfeitamente magra e mais educada do que a maioria de nós. Sobre outras coisas ela está de acordo, por exemplo que é uma companhia divertida, gosta de ser pontual, gosta que as outras pessoas sejam pontuais, e não é muito organizada na limpeza da casa. Talvez seja verdade que as coisas sobre as quais nós todos concordamos fazem parte daquilo que ela realmente é, ou daquilo que ela realmente seria se existisse isso de ela ser aquilo que realmente é, porque quando vou à procura daquilo que ela realmente é, só encontro contradições em tudo: mesmo quando ela e os amigos concordam sobre alguma coisa, pode não parecer tão certo para um simples conhecido, que pode achar que a companhia dela é aborrecida ou os seus quartos demasiado arrumados, e nem sequer estará completamente errado, visto que há alturas em que ela é mesmo aborrecida, e outras alturas em que ela mantém a casa limpa, embora essas alturas nunca sejam as mesmas, pois ela não consegue ser organizada quando se sente aborrecida.
Sendo isto tudo verdade sobre a minha amiga, ocorre-me que também eu posso não saber inteiramente aquilo que sou, e que os outros podem saber coisas sobre mim melhor daquilo que eu sei, embora pense que só posso ser eu a saber tudo aquilo que há para saber e viva como se soubesse. Mesmo me apercebendo disso, porém, não tenho outra escolha senão continuar a viver como se soubesse inteiramente aquilo que sou, embora de vez em quando poderei também esforçar-me só por adivinhar aquilo que os outros sabem que eu não chego a saber.
(copyright Lydia Davis, "A Friend of Mine", The Collected Stories of Lydia Davis, tradução deste vosso criado que não se responsabiliza por eventuais falhas).
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