03/12/2009

Boring friends (Lydia Davis)

We know only four boring people. The rest of our friends we find very interesting. However, most of the friends we find interesting find us boring: the most interesting find us the most boring. The few who are somewhere in the middle, with whom there is reciprocal interest, we distrust: at any moment, we feel, they may become too interesting for us, or we too interesting for them.

11/11/2009

O muro

Quando uma amizade termina entre equívocos e desilusões, não resistimos a erguer o nosso muro de Berlim contra os ex-amigos. É então que se inicia uma espécie de Guerra Fria entre todos. Sem agressões, desaforos directos, mas sempre em qualquer caso com a ameaça omnipresente e constante de que as hostilidades poderão começar. Para nós, os antigos amigos são a recordação de um fracasso em que também participámos. Por isso hesitamos tanto na distribuição de culpas.

10/11/2009

O prato partido



Em 1936 Scott Fitzgerald publicou na revista Esquire, The Crack Up, uma série de três textos confessionais sobre a depressão que tomou conta do escritor a meio da vida e não o largou até à morte. Depressão, colapso, esgotamento não são sequer palavras certas para traduzir The Crack up. Explica Fitzgerald logo no começo que os textos versavam sobre outras doenças:

There is another sort of blow that comes from within - that you don't feel it until it's too late to do anything about it, until you realize you will never be as good as a man again.

Numa certa fase da sua vida adulta, Scott Fitzgerald viu subitamente isso mesmo: tinha-se partido ao meio, afundado, parado de funcionar. E The Crack Up é o relato soberbo desse naufrágio. Já não era possível regressar à superfície.

Os amigos raramente compreendem gestos públicos de auto-mutilação; raramente aceitam o direito de qualquer pessoa a escancarar o estado em que se encontra ou a sua posição sobre si próprio. Pois, quando os textos de Scott Fitzgerald saíram na Esquire, os amigos reagiram com reprovaçao severa. Hemingway comentou que não conseguia acreditar: "as peças eram miseráveis: pura lamentação em público"; enquanto John dos Passos, mais generoso, escreveu "tudo bem se ele quisesse destruir-se aos poucos mas ao menos que escrevesse um romance sobre o assunto".

Of course all life is the process of breaking down
, avisa Fitzgerald na primeira frase. E tinha razão. Estes três amigos, todos eles, acabaram mal: Fitzgerald, o mais talentoso, morreu com 44 anos; Hemingway estoirou a cabeça; Dos Passos deixou de ser lido.

09/11/2009

Oito meses

Oito meses. Conseguimos. Quando começámos, ninguém acreditou que fosse possível. Deram-nos dias, semanas, lembras-te? Diziam que eras um estalinista, maoísta, talibã da amizade e que eu não passava de um relapso, libertário, hiper-sensível que até se zangou com o último amigo digno do nome que teve. Tudo certo. Tudo errado. Oito meses. Chegámos aqui. Creio que devemos celebrar.

O pior é o som

Converso ao telefone com o meu amigo A.. Fico com a impressão de que ele mede cada palavra e ao mesmo tempo omite tantas outras. Tudo, até as pausas entre as quais vou respirando, me soam a conveniência deslocada, a diplomacia excessiva. Sou um defensor do tacto nas amizades mas não de um certo tipo de pacifismo afectado e profissional. Como nos casamentos mais bem-sucedidos, às vezes as amizades também precisam de uma "bofetada" libertadora. Não, evidentemente, de uma bofetada literal, mas de uma espécie de agressividade velada que deve existir em todas as relações humanas. Não há mal nenhum em recebermos uma bofetada dos amigos quando nos pusemos a jeito e se for essa a única forma de encararmos a realidade. O pior, citando alguém, é só mesmo o som.