08/06/2010

Coerência

De todas as categorias da amizade, talvez a dos “amigos de infância” seja a mais difícil de enquadrar. É verdade que eles deveriam ser, em certa medida, os nossos amigos autênticos porque souberam resistir à mudança ou mudaram na exacta medida em que nós também mudámos. Tornaram-se, precisamente como nós, amigos apesar da infância ou amigos contra a infância. Contra o tempo e a mudança de estações.

Mas, por outro lado, quantas vezes não conservamos um amigo de infância, não por causa dele, não porque a amizade propriamente resistisse e tivesse razões para resistir, mas porque queremos continuar fiéis a uma certa ideia de infância? Quantas vezes a permanência de um amigo de infância não se explica pela nossa dependência do passado e daquilo que fomos, mas para que na nossa nova condição formada e amadurecida fiquemos em paz com o passado e com a memoria?

Ficar em paz com a memória. As mudanças que nos acontecem na vida são sempre uma perturbação a que assistimos com mais ou menos consciência. O passado conhece muitas maneiras de se intrometer pelo presente. Nunca deixamos de ser o que fomos nem a memória do que fomos. Permanecemos reféns de uma ideia antiga de nós próprios que descobrimos um dia por acaso e na qual continuamos a acreditar por causa de um obscuro dever de coerência.

07/06/2010

O regresso

Por que será que mudamos de passeio sempre que reconhecemos à distância um antigo amigo do liceu que não temos vontade em rever? Receamos o embate com o passado, o protocolo embaraçoso, a falta de assunto? Pensamos que regressar àquele mundo perdido seria sempre difícil e doloroso?

Talvez devêssemos admitir o contrário. Se nos afastamos não é porque nos tornámos noutra pessoa, enquanto o nosso antigo colega permanece igual. Se o evitamos é porque temos receio que ele tivesse mesmo mudado, ao passo que nós continuamos rigorosamente como éramos. Vinte anos depois, temos menos estofo para comparações.

10/02/2010

Questão de tempo

Ao telefone, M. diz que às vezes detesta os amigos. Depois torna a gostar deles, com o mesmo entusiasmo e sem compreender a mudança. Para logo a seguir, quando menos espera, os odiar de novo, por motivos que ela própria não consegue explicar. M. informa-me que já se passou o mesmo comigo. Já me detestou e já recuperou o afeto por mim. Pergunto a M. em que ponto é que estamos agora. Diz que não gosta mas que é uma questão de tempo até voltar a gostar. Desligo sem querer.

03/01/2010

Défice

Num ano de muitas provas de amizade, também perdi amigos. Creio que foram mais os amigos que perdi do que os que ganhei. Estou também em défice nas minhas próprias contas. Para 2010 vou ter de apertar o cinto.

03/12/2009

Boring friends (Lydia Davis)

We know only four boring people. The rest of our friends we find very interesting. However, most of the friends we find interesting find us boring: the most interesting find us the most boring. The few who are somewhere in the middle, with whom there is reciprocal interest, we distrust: at any moment, we feel, they may become too interesting for us, or we too interesting for them.

11/11/2009

O muro

Quando uma amizade termina entre equívocos e desilusões, não resistimos a erguer o nosso muro de Berlim contra os ex-amigos. É então que se inicia uma espécie de Guerra Fria entre todos. Sem agressões, desaforos directos, mas sempre em qualquer caso com a ameaça omnipresente e constante de que as hostilidades poderão começar. Para nós, os antigos amigos são a recordação de um fracasso em que também participámos. Por isso hesitamos tanto na distribuição de culpas.

10/11/2009

O prato partido



Em 1936 Scott Fitzgerald publicou na revista Esquire, The Crack Up, uma série de três textos confessionais sobre a depressão que tomou conta do escritor a meio da vida e não o largou até à morte. Depressão, colapso, esgotamento não são sequer palavras certas para traduzir The Crack up. Explica Fitzgerald logo no começo que os textos versavam sobre outras doenças:

There is another sort of blow that comes from within - that you don't feel it until it's too late to do anything about it, until you realize you will never be as good as a man again.

Numa certa fase da sua vida adulta, Scott Fitzgerald viu subitamente isso mesmo: tinha-se partido ao meio, afundado, parado de funcionar. E The Crack Up é o relato soberbo desse naufrágio. Já não era possível regressar à superfície.

Os amigos raramente compreendem gestos públicos de auto-mutilação; raramente aceitam o direito de qualquer pessoa a escancarar o estado em que se encontra ou a sua posição sobre si próprio. Pois, quando os textos de Scott Fitzgerald saíram na Esquire, os amigos reagiram com reprovaçao severa. Hemingway comentou que não conseguia acreditar: "as peças eram miseráveis: pura lamentação em público"; enquanto John dos Passos, mais generoso, escreveu "tudo bem se ele quisesse destruir-se aos poucos mas ao menos que escrevesse um romance sobre o assunto".

Of course all life is the process of breaking down
, avisa Fitzgerald na primeira frase. E tinha razão. Estes três amigos, todos eles, acabaram mal: Fitzgerald, o mais talentoso, morreu com 44 anos; Hemingway estoirou a cabeça; Dos Passos deixou de ser lido.

09/11/2009

Oito meses

Oito meses. Conseguimos. Quando começámos, ninguém acreditou que fosse possível. Deram-nos dias, semanas, lembras-te? Diziam que eras um estalinista, maoísta, talibã da amizade e que eu não passava de um relapso, libertário, hiper-sensível que até se zangou com o último amigo digno do nome que teve. Tudo certo. Tudo errado. Oito meses. Chegámos aqui. Creio que devemos celebrar.

O pior é o som

Converso ao telefone com o meu amigo A.. Fico com a impressão de que ele mede cada palavra e ao mesmo tempo omite tantas outras. Tudo, até as pausas entre as quais vou respirando, me soam a conveniência deslocada, a diplomacia excessiva. Sou um defensor do tacto nas amizades mas não de um certo tipo de pacifismo afectado e profissional. Como nos casamentos mais bem-sucedidos, às vezes as amizades também precisam de uma "bofetada" libertadora. Não, evidentemente, de uma bofetada literal, mas de uma espécie de agressividade velada que deve existir em todas as relações humanas. Não há mal nenhum em recebermos uma bofetada dos amigos quando nos pusemos a jeito e se for essa a única forma de encararmos a realidade. O pior, citando alguém, é só mesmo o som.

06/11/2009

O cérebro



Como funcionará o cérebro na amizade? Que mudanças, variações químicas, nódulos, tremores nervosos? Se existe uma neurociência para o amor, também tem de existir para a amizade. Certamente que alguém deve andar a estudar o assunto cheio de testes e radiografias. Qual será, por gentileza, a parte do cérebro responsável pelas funções da amizade? Os neurotransmissores respondem da mesma maneira, registam diferenças entre as pessoas com e sem amigos? Desconheço tudo. Claro que a amizade pode nem ter impacto suficiente para atingir o cérebro. Seria apenas uma impressão consumida por outras impressões. Mesmo assim hesito. Tem mesmo de haver alguma coisa, uma fisiologia própria, um movimento imperceptível. A amizade não pode ser apenas uma fotografia que vimos de relance.

Saltamos a parte da amizade

11 a.m. I come across an ad from a sincere-looking South Asian fellow and respond. The fellow responds with a number. I call and we agree to hook up for drinks.

6:17 p.m. The fellow and I do a 69.

(Uma das entradas dos diários sexuais dos nova-iorquinos que a New York Magazine tem publicado no seu site).

02/11/2009

Buddies



"Husbands" (1970), John Cassavetes.

01/11/2009

Uma amiga minha

Estou a pensar numa amiga minha, como ela é não só aquilo que acha que é, ela é também aquilo que os amigos acham dela, e aquilo que a família acha dela, e até aquilo que ela é aos olhos de simples conhecidos e completos estranhos. Sobre certas coisas, os amigos têm uma opinião e ela outra. Ela acha, por exemplo, que tem excesso de peso e que não é tão educada como deveria ser, mas os amigos sabem que ela é perfeitamente magra e mais educada do que a maioria de nós. Sobre outras coisas ela está de acordo, por exemplo que é uma companhia divertida, gosta de ser pontual, gosta que as outras pessoas sejam pontuais, e não é muito organizada na limpeza da casa. Talvez seja verdade que as coisas sobre as quais nós todos concordamos fazem parte daquilo que ela realmente é, ou daquilo que ela realmente seria se existisse isso de ela ser aquilo que realmente é, porque quando vou à procura daquilo que ela realmente é, só encontro contradições em tudo: mesmo quando ela e os amigos concordam sobre alguma coisa, pode não parecer tão certo para um simples conhecido, que pode achar que a companhia dela é aborrecida ou os seus quartos demasiado arrumados, e nem sequer estará completamente errado, visto que há alturas em que ela é mesmo aborrecida, e outras alturas em que ela mantém a casa limpa, embora essas alturas nunca sejam as mesmas, pois ela não consegue ser organizada quando se sente aborrecida.

Sendo isto tudo verdade sobre a minha amiga, ocorre-me que também eu posso não saber inteiramente aquilo que sou, e que os outros podem saber coisas sobre mim melhor daquilo que eu sei, embora pense que só posso ser eu a saber tudo aquilo que há para saber e viva como se soubesse. Mesmo me apercebendo disso, porém, não tenho outra escolha senão continuar a viver como se soubesse inteiramente aquilo que sou, embora de vez em quando poderei também esforçar-me só por adivinhar aquilo que os outros sabem que eu não chego a saber.

(copyright Lydia Davis, "A Friend of Mine", The Collected Stories of Lydia Davis, tradução deste vosso criado que não se responsabiliza por eventuais falhas).

30/10/2009

A desamizade corrigida

Entre amigos não é preciso justiça, mas as pessoas justas continuam a precisar da amizade.

É uma das frases mais citadas de Aristóteles, extraída da sua Ética a Nicómaco. O que diz Aristóteles é que os amigos não precisam da justiça porque já estão de certo modo acima: são amigos, e por terem atingido esse lugar cimeiro, já possuem a última virtude. Diversamente, os justos ainda precisam da amizade e os injustos precisam mesmo das duas qualidades: da justiça e da amizade.

Se Aristóteles tiver aqui razão e admito que tenha, precisamos de enfrentar as suas consequências. Sendo a amizade um bem superior à própria justiça, todos os problemas de que uma amizade em concreto possa padecer, todas as situações de desamizade, não poderão ser resolvidos tal como se resolvem as injustiças. Uma injustiça ainda poderá ser corrigida com justiça; é até normal que assim seja. Mas poderá uma desamizade ser corrigida com amizade? Quando um amigo se desilude com outro, ou quando um amigo conspira contra outro, poderão tais desamizades ser corrigidas com amizade? Não: empiricamente, uma desamizade, ao contrário de uma injustiça, não poderá ser suprida com amizade. Uma desamizade significa justamente a ruptura da amizade, mas uma injustiça não representa a ruptura da justiça. Bem sei que Aristóteles nunca falou de desamizade. Só que se existe justiça e injustiça, é normal que também exista amizade e desamizade. Certamente que Aristóteles, tendo pensado em tudo, pensou também nesse assunto.

Por isso, a frase de Aristóteles também poderia ser dita da seguinte maneira: Entre amigos não é preciso justiça, mas entre ex-amigos é aconselhável.

Princípio da desigualdade

Não devemos esperar que a amizade seja uma convenção entre iguais. A amizade só pode ser uma experiência desequilibrada e anti-igualitária. Para não fracassar é preciso que duas pessoas aceitem, com tolerância e resignação, o seu lugar na hierarquia. Um mais inteligente do que o outro. Um mais bonito do que o outro. Um mais rico do que o outro. Se formos suficientemente lúcidos, tomaremos consciência dessas diferenças sem deixar que elas nos atinjam e sem nunca as exibirmos como arma. Faz parte da amizade manter certas reservas, certos silêncios.

O que sabemos melhor sobre a amizade é que nunca pode ser uma democracia. Quando muito, a amizade é uma aristocracia aberta, porque os aristocratas de uma amizade podem perfeitamente ser os camponeses de outra. Na amizade ninguém tem poder o tempo todo.

Anatomia de um começo

Vi-o sentar-se numa mesa do café onde estou agora. Pousou os livros. Eram cinco, todos do mesmo escritor: W G Sebald. Alinhou-os uns por cima dos outros. Abriu um, Austerlitz, ligou o computador, começou a escrever.

Pensei logo que era estudante de literatura, a completar uma tese ou algo do género. Tive impressão de que ia tirando notas, que copiava partes do livro. Talvez fosse um especialista em Sebald, por pior que isto me soasse. Especulei sobre o que estaria ele ali a fazer, porquê aquele monte de livros de um único escritor. Quis fazer-lhe essa pergunta. Hesitei. Sempre o velho instinto de precaução: deixa a vida dele, se não ele também não irá deixar a tua. Todos os dias celebramos tratados de não-amizade seguindo à risca este princípio.

Mas não. Desta vez mete-te na vida dele; faz perguntas; as pessoas gostam que lhes façam perguntas. Fiz. E fiquei a saber que ele não era nada estudante de literatura; estava a terminar direito, curso que lhe saíu caro mas do qual até tinha gostado alguma coisa. Os livros? Sebald era o seu escritor preferido e estava agora a relê-lo do princípio ao fim. Quis saber se conhecia. Eu disse que sim. Perguntou-me se eu gostava de algum livro em particular; respondi que não tinha lido muito mas que se tivesse de escolher também seria Austerlitz. Citei o nome de um ensaio que aparece salvo erro em Campo Santo: "Kafka vai ao cinema". Ele não só conhecia como mantinha uma verdadeira veneração pelo texto. Falámos depois dos escritores americanos, comigo a explicar porque acho que os três melhores são Philip Roth, Cormac McCarthy e Bret Easton Ellis. Pynchon, disse ele. Nunca consegui ler, disse eu. Perguntou-me se eu tinha lido a entrevista que Philip Roth dera na véspera ao New York Times dizendo que os leitores de romances não irão sobreviver e que o género tem os dias contados. Sim, tinha lido. Discordámos os dois. Fomos veementes. Falámos sobre isso, falámos sobre tudo. Estivemos horas.

Ainda me lembro do primeiro dia de enamoramento que tive pelo meu mais antigo amigo. Foi um encontro em tudo semelhante a este. Foi uma paixão verdadeira, idealizada, platónica, que também começou pelo gosto que ambos tínhamos pela literatura e pelo mesmo acordo, não de opiniões, mas de sensibilidades. Porque não é só no amor que eles acontecem: esses dias principais em que uma amizade nos parece tão perfeita e incorruptível que é mesmo uma pena, uma lástima, que o tempo se encarregue de estragar tudo.

27/10/2009

Amizade ou algo menos

"Para amizade ou algo mais", escrevem os solitários nos anúncios de dating espalhados pela imprensa. Que eu saiba, ainda ninguém teve a feliz ideia de propor "amizade ou algo menos". Mesmo que fosse mais seguro, mais rigoroso e certamente mais claro.

26/10/2009

Falhas de comunicação

A última mulher de quem tentei ser amigo, achou que eu estava interessado em mais. Resultado: não ficou nada, nem amor nem amizade. A última mulher de quem estive interessado, achou que eu apenas queria ser amigo. Resultado: também não ficou nada, nem amor nem amizade.

Pode ter sido por uma coincidência absurda, macabra, astrológica. Pode ter sido porque, em ambos os casos, as duas queriam simplesmente coisas diferentes. Ou pode ter sido por outra razão mais credível e mais trágica: a quase absoluta impossibilidade de tornarmos as nossas intenções claras para as mulheres. Talvez, mas só talvez, porque nem nós sabemos ao certo o que queremos. Entre homens e mulheres, as amizades tendem para não ser muito mais do que falhas de comunicação.

"A amizade que é uma proximidade" (Agamben)



O que é a amizade? Amizade é isto: eles estão tão próximos um do outro que mal se conseguem distinguir.

(Giovanni Serodine, I Santi Pietro e Paollo sulla via del martirio (1625), Museu de Arte Antiga de Roma).

Intimidade

Poucos momentos nos incomodam tanto numa conversa como a intimidade que não pedimos ou não desejámos saber. Encaramo-la como informação a mais, disfarçamos quase sempre o nosso desagrado, e tentamos impedir à partida o que o outro tem para dizer. Detestamos ser surpreendidos por confissões que nos parecem descabidas e deslocadas.

Se os segredos alheios nos oprimem não é porque nos consideramos indignos desses segredos; nem porque os outros são indignos de nos ter como ouvintes. O que pensamos é que todas essas revelações a despropósito nos atiram para uma relação sem saída. Antes que mostrássemos vontade de entrar, já fomos expropriados da possibilidade de sair, pelo menos sem provocar danos nas expectativas dos nossos amigos.

Confio-te aquilo que não me pediste para receber a confiança que me não podes dar. Um belo paradoxo.

A intimidade forçada pretende obrigar-nos à amizade forçada. Mas a amizade não é um dever. A amizade é um direito.