O maior inimigo da amizade é o amor; o amor romântico que despreza todos os outros bens. Foram os românticos que destruíram a amizade.
08/06/2010
A amizade trágica
Admitamos então que a amizade só pode ser a amizade possível. A dúvida está em saber: possível em relação a quê? Em relação a uma amizade mais ética ou mais perfeita?
No nosso caso, decidimos que a amizade será de facto a possível, mas apenas porque ambos sabemos que facilmente ela acabaria por se perder noutra coisa. Então, fizemos uma escolha preventiva: optámos por fazer da nossa amizade numa experiência de fronteiras e possibilidades bem definidas. Como amigos não seremos mais do que somos, uma vez que sabemos que poderíamos transformar-nos em mais. Devemos arruinar uma amizade possível com um amor possível? Não sei se me entendem. E no entanto, é verdade que só conseguiremos viver uma amizade possível se a alimentarmos em permanência com a ideia de um amor possível. Esse equilíbrio é o mais difícil de obter. A amizade possível é por isso a amizade trágica.
Coerência
De todas as categorias da amizade, talvez a dos “amigos de infância” seja a mais difícil de enquadrar. É verdade que eles deveriam ser, em certa medida, os nossos amigos autênticos porque souberam resistir à mudança ou mudaram na exacta medida em que nós também mudámos. Tornaram-se, precisamente como nós, amigos apesar da infância ou amigos contra a infância. Contra o tempo e a mudança de estações.
Mas, por outro lado, quantas vezes não conservamos um amigo de infância, não por causa dele, não porque a amizade propriamente resistisse e tivesse razões para resistir, mas porque queremos continuar fiéis a uma certa ideia de infância? Quantas vezes a permanência de um amigo de infância não se explica pela nossa dependência do passado e daquilo que fomos, mas para que na nossa nova condição formada e amadurecida fiquemos em paz com o passado e com a memoria?
Ficar em paz com a memória. As mudanças que nos acontecem na vida são sempre uma perturbação a que assistimos com mais ou menos consciência. O passado conhece muitas maneiras de se intrometer pelo presente. Nunca deixamos de ser o que fomos nem a memória do que fomos. Permanecemos reféns de uma ideia antiga de nós próprios que descobrimos um dia por acaso e na qual continuamos a acreditar por causa de um obscuro dever de coerência.
07/06/2010
O regresso
Por que será que mudamos de passeio sempre que reconhecemos à distância um antigo amigo do liceu que não temos vontade em rever? Receamos o embate com o passado, o protocolo embaraçoso, a falta de assunto? Pensamos que regressar àquele mundo perdido seria sempre difícil e doloroso?
Talvez devêssemos admitir o contrário. Se nos afastamos não é porque nos tornámos noutra pessoa, enquanto o nosso antigo colega permanece igual. Se o evitamos é porque temos receio que ele tivesse mesmo mudado, ao passo que nós continuamos rigorosamente como éramos. Vinte anos depois, temos menos estofo para comparações.
10/02/2010
Questão de tempo
Ao telefone, M. diz que às vezes detesta os amigos. Depois torna a gostar deles, com o mesmo entusiasmo e sem compreender a mudança. Para logo a seguir, quando menos espera, os odiar de novo, por motivos que ela própria não consegue explicar. M. informa-me que já se passou o mesmo comigo. Já me detestou e já recuperou o afeto por mim. Pergunto a M. em que ponto é que estamos agora. Diz que não gosta mas que é uma questão de tempo até voltar a gostar. Desligo sem querer.
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