15/06/2010

Uma competência (1)

Se a amizade for uma competência, como explicar que uns a tenham em excesso, enquanto outros precisem de ser ensinados? Como explicar esse desnível de aptidão, talento, esforço, essa necessidade variável entre os amigos, seja qual for a palavra que o caracterize com propriedade. Existe uma competência para a amizade que não foi bem distribuída no mundo, mas não estamos seguros porquê, nem daquilo que precisamos para a adquirir. 

14/06/2010

A reunificação

Uma pessoa passa a vida a criar amizades dispersas que nunca se cruzam. Os amigos de infância, da universidade, do trabalho. Essas amizades representavam facetas e contextos diferentes da nossa vida social. Faziam da amizade como que uma experiência heteronímica. Sucede porém que as redes sociais como o Facebook anulam praticamente todas essas fronteiras. Reunindo todos os amigos numa só categoria, as redes sociais contribuem para reunificar a nossa personalidade múltipla. E sem os nossos velhos muros de segurança, ficamos mais expostos e vulneráveis.

13/06/2010

Casamento

Os amigos conhecem-se, para que sejam amigos. Os casados nem tanto: para que se mantenham casados.

08/06/2010

Contra o amor romântico

O maior inimigo da amizade é o amor; o amor romântico que despreza todos os outros bens. Foram os românticos que destruíram a amizade.

A amizade trágica

Admitamos então que a amizade só pode ser a amizade possível. A dúvida está em saber: possível em relação a quê? Em relação a uma amizade mais ética ou mais perfeita? 

No nosso caso, decidimos que a amizade será de facto a possível, mas apenas porque ambos sabemos que facilmente ela acabaria por se perder noutra coisa. Então, fizemos uma escolha preventiva: optámos por fazer da nossa amizade numa experiência de fronteiras e possibilidades bem definidas. Como amigos não seremos mais do que somos, uma vez que sabemos que poderíamos transformar-nos em mais. Devemos arruinar uma amizade possível com um amor possível? Não sei se me entendem. E no entanto, é verdade que só conseguiremos viver uma amizade possível se a alimentarmos em permanência com a ideia de um amor possível. Esse equilíbrio é o mais difícil de obter. A amizade possível é por isso a amizade trágica.