14/09/2010

O philoi, oudei philos

Dizem que Aristóteles se lamentou um dia da seguinte maneira: ó amigos, não há amigos. A expressão ficou. E ainda hoje batalhões de investigadores tentam decifrar o que Aristóteles queria dizer com aquilo. É um queixume muito frequente na amizade. Uma pessoa rejeita a existência dos amigos, ao mesmo tempo que os invoca e se dirige a eles. Uma contradição aparente. Não temos relatos sobre as reacções dos amigos de Aristóteles. Mas é provável que tivessem pensado que Aristóteles era um grande fiteiro. Pensem com cuidado: as nossas decepções com amigos podem ser o nosso teatro privado de máscaras e representações.

Em resumo

A intimidade perdida com o meu amigo, uma amizade recente que não chegou a ser, equívocos e desconfianças, portas semi-abertas da saída onde julguei por momentos ver a entrada.

24/06/2010

Metafísica da amizade

Friendship is just a proximity that resists conceptualization and representation (Agamben). Se Agamben estivesse certo, não poderíamos pensar a amizade como um conceito anterior a qualquer forma de experiência. Seríamos obrigados a vê-la como um facto (algo de que estamos perto, uma vivência) e não como uma categoria (aquilo que representamos, criamos ou construímos). Um amigo não seria um 'algo', não teria nenhuma qualidade ontológica ou descritiva, não seria categorial mas vivencial. Um amigo limitar-se-ia a estar, a coexistir, a con-sentir, a sua existência partilharia a nossa existência. Se Agamben estivesse certo, não poderíamos imaginar a amizade como uma metafísica, uma ideia, um platonismo. No entanto, Agamben não pode estar certo, porque a amizade nunca deixa de ser para nós um espaço mental onde construímos e ficcionamos os nossos gostos e dependências. As teorias da amizade são um obstáculo à amizade, escrevi aqui há meses. O que é bem diferente de uma amizade sem teorias. Cada um vive as suas amizades dentro de si.

Uma competência (2)

Os homens que vivem sem a companhia das mulheres, que não aprenderam a estar com as mulheres, parecem quase sempre distantes, senão mesmo incompetentes para os códigos da amizade. Umas vezes porque adquiriram uma amargura e um ressentimento que retraem os amigos. Outras vezes porque viver pacificamente sem as mulheres, celibatários em primeira ou segunda mão, significa que nunca se sentiu na pele um certo tipo de dependência.

Quase sempre, as nossas melhores amizades só nos surgem depois de termos estado apaixonados e não antes. É a amizade que é um sucedâneo do amor e não o contrário. Porque no princípio pensámos que o amor chegava .

Granizo

Está tudo bem, eu e o meu amigo conversamos horas, rimos, celebramos, ouvimo-nos em voz baixa, descobrimos os nossos defeitos comuns. E de repente, a terminar a noite, uma frase fora do sítio, implacável, sinceridade a mais, sensibilidade a mais, cinzas que resolvem cair, o granizo da amizade.