01/06/2011
O não-encontro
Dois amigos podem decidir encontrar-se. Acontece com imensa frequência. Mas dois amigos podem também escolher não se encontrar. Estão no mesmo espaço, percebem a presença um do outro, intuem que foram vistos, mas simulam uma distracção plausível e disfarçável. No fim, optam por não se manifestar. Não sendo um acaso e menos uma coincidência, este não-encontro nasce de uma decisão comum, ou de duas decisões comuns. Fechei os olhos ao meu amigo. Triste a amizade que é feita destes não-encontros.
26/12/2010
Selecção natural
Não sabemos o que esperar de uma amizade antes de testarmos o nosso próprio instinto de sobrevivência e o dos outros. Antes de percebermos se queremos ser vítimas na amizade, ou se temos espaço para uma agressão justa e retributiva à agressão.
Quando os dois nos desentendemos com violência e eu disse o que não devia e me arrependi logo daquilo que disse, tentei recuar para um estado que permitisse alguma reparação. Depressa percebi que era impossível. Eu podia ser vítima se ela também escolhesse ser vítima ou agressor se ela também fosse agressora. É o que explica que em certas amizades as zangas entre amigos acabem resolvidas de um modo virulento, aberto, sem concessões. Têm mesmo de ser. Vítima contra vítima, agressor contra agressor.
O que não podia acontecer era eu assumir-me como vítima para ela responder como agressora, nem ela insistir em ser vítima diante da minha agressão. Nesse caso, só havia uma coisa sensata a fazer, talvez por falta de alternativa: terminar a amizade. Chamemos-lhe a selecção natural dos amigos.
16/09/2010
14/09/2010
Colisão
Podíamos ter evitado a colisão, é certo. Se tivéssemos sabido desviar-nos, eu para a esquerda, ela para a direita. Ou se nem sequer nos tivéssemos cruzado naquele tempo e lugar. Mas nenhum de nós me pareceu um condutor experiente. Nenhum de nós conhecia propriamente as estradas. O piso molhado, o nevoeiro baixo fizeram o resto. Não percebemos que o outro se aproximava. De repente, era tarde.
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