12/03/2012
Figura de estilo
Tentei argumentar que amizade é demasiadas vezes apenas um nome conveniente que, faltando-nos melhor, arranjámos para definir outros estados, outras coisas, outras dependências. Assim como uma figura de estilo. Devemos interessar-nos pelo mundo que está para além da amizade se queremos compreender a amizade.
29/12/2011
11/08/2011
A estrela da amizade
O contrário da amizade não é tanto a inimizade mas a estranheza. Dois amigos perdem a amizade quando deixam de se reconhecer um ao outro; quando optam por caminhos diferentes, habitantes de um mundo já que não partilham. E mesmo que tais caminhos se cruzem, como pode sempre acontecer, elescontinuarão a ser distantes e irreconciliáveis. "Que havemos de nos tornar estranhos é a lei em cima de nós", escreve Nietzsche em A Gaia Ciência. "Pelo mesmo motivo, deveremos tornar-nos mais veneráveis um para o outro, e a memória da nossa amizade ainda mais sagrada". Este é um fragmento consolador no qual comecei a pensar quando me apercebi de que também tenho as minhas amizades antigas, alienadas, dependentes da mesma lei da Gaia Ciência. A consolação está em que eu também posso imaginar essas amizades perdidas como memórias ou estrelas que assiduamente me visitam. Deverei por isso respeitá-las.
01/06/2011
O não-encontro
Dois amigos podem decidir encontrar-se. Acontece com imensa frequência. Mas dois amigos podem também escolher não se encontrar. Estão no mesmo espaço, percebem a presença um do outro, intuem que foram vistos, mas simulam uma distracção plausível e disfarçável. No fim, optam por não se manifestar. Não sendo um acaso e menos uma coincidência, este não-encontro nasce de uma decisão comum, ou de duas decisões comuns. Fechei os olhos ao meu amigo. Triste a amizade que é feita destes não-encontros.
26/12/2010
Selecção natural
Não sabemos o que esperar de uma amizade antes de testarmos o nosso próprio instinto de sobrevivência e o dos outros. Antes de percebermos se queremos ser vítimas na amizade, ou se temos espaço para uma agressão justa e retributiva à agressão.
Quando os dois nos desentendemos com violência e eu disse o que não devia e me arrependi logo daquilo que disse, tentei recuar para um estado que permitisse alguma reparação. Depressa percebi que era impossível. Eu podia ser vítima se ela também escolhesse ser vítima ou agressor se ela também fosse agressora. É o que explica que em certas amizades as zangas entre amigos acabem resolvidas de um modo virulento, aberto, sem concessões. Têm mesmo de ser. Vítima contra vítima, agressor contra agressor.
O que não podia acontecer era eu assumir-me como vítima para ela responder como agressora, nem ela insistir em ser vítima diante da minha agressão. Nesse caso, só havia uma coisa sensata a fazer, talvez por falta de alternativa: terminar a amizade. Chamemos-lhe a selecção natural dos amigos.
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